segunda-feira, 30 de abril de 2012

O clamor do pobre

Tolstói iniciou Anna Karenina com uma das mais espetaculares afirmações da literatura: ”Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A felicidade é indistinta, mas a tristeza carrega particularidades específicas. Ao longe, os cenários são belos; próximos, expõem detritos horrorosos. De perto, o lixo fede. Narrativas universalizantes foram incapazes de retratar dramas pessoais – vivenciados na dura realidade cotidiana.

Filosofia e teologia se especializaram em grandes narrativas para lidar com o sofrimento. Esqueceram as pequenas realidades. No microcosmo, gente com nome, história e laços de amor geme. Oprimidos em inúmeros cativeiros, os judeus cantavam: “Quem são homens e mulheres para que Te lembre deles? Onde Te escondeste, ó Senhor?”.


Voltaire afirmou que se há vida em outros mundos, a terra é o manicômio do universo. Segundo a ONU, dois milhões morrem de fome a cada dia – eu disse: cada dia.  Estima-se que só na Europa, 500 mil mulheres sejam traficadas a cada ano – a maioria para exploração sexual. (as brasileiras engrossam as estatísticas no Velho Continente e somam 75 mil, o equivalente a 15% das vítimas). O que fazer com a cólera no Haiti, a malária na África, a guerra civil no Sudão, a perseguição religiosa no Afeganistão, o consumismo e a indiferença na Europa e os homicídios do México ao Brasil?

O palácio dos horrores baixou a ponte. Cavaleiros do Apocalipse entram em cena a galope. De tão barata a vida, milhões e milhões de famílias, à sua maneira, experimentam o inferno.
A prece mais religiosa para esta geração deve ser: “Deus, por que não invades logo o monturo que se transformou este planeta? Por que o Senhor não acaba com o ato desse teatro macabro? A peça já se arrasta além do necessário. O preço que cobras por teres nos criado imperfeitos não está alto demais?”.

Que volte o hino do negro spiritual: “Não se te dá que morramos? Como podes assim dormir?”
Se existe outro mundo possível, onde se esconde? Por que os mínimos sinais de um reino alternativo sempre foram imprecisos? Por que o bem se perdeu em instituições adoecidas? Nada explica a ganância ser maior que a fome de justiça.

Além da indiferença do universo, anônimos sofrem com a burocracia estatal – burocracia fria. Oligarquias se reinventam para manter o poder nas mãos dos mesmos. Estruturas se satanizam. Instituições legitimam processos de alienação. O mal se multiplica com facilidade. O bem consome a vida dos poucos que se atrevem concretizá-lo.

A história segue. Ruma ao grande abismo. T. S. Eliot perguntou: “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”.  Insana, a humanidade se debate sem sequer buscar antídoto para o veneno que a destrói.

Quantos se dispõem quebrar o sistema que abandona crianças à miséria? Mulheres violentadas e idosos abandonados continuarão sem terem quem os vingue?  A coerência que justifica o mal será desfeita quando?

Milhões se entorpecem. Tateiam em busca de respostas nos lugares errados. Consumismo junto com as indústrías do esportismo e do “celebrismo” servem para perpetuar a ilusão de que no fim tudo vai dar certo. Estupidez. Quinquilharias tecnológicas salvam e alienam. Erudição ilustra e ilude. Enquanto a mão esquerda escreve poesia, a destra declara guerra.
Vaidosa, a atual geração se considera pouco menor do que os anjos. Só não vê a própria cara desfigurada – monstro de iniquidade.

Os caminhos humanos não apontam para um progresso inexorável; não desembocam, necessariamente, em estrada alguma. Nada garante que o rio da história alcance o oceano do sentido.

O planeta terra parou de brilhar; há muito não embeleza o universo. A eternidade não guardará registro do tempo fugaz dos humanos por aqui. As perguntas que a racionalidade fez foram insuficientes para chegar à verdade. A pouca solidariedade partilhada malogrou em redimir o ódio. Livros da história produziram melancolia por um passado de ouro, apenas. A clemência da geração que sucedeu ao holocausto se revelou impotente para evitar outros genocídios. A ciência não conseguiu reverter o inconsciente coletivo, que ainda viabilizará novas chacinas.
O Nazareno acertou: em todos os dias cabe um mal próprio.  Sendo assim, séculos não aliviarão a tragédia da geração atual. Não por acaso os pobres, conscientes de seu sofrimento, devem voltar a clamar: “Maranata – não te demores, Senhor”.

Soli Deo Gloria

Texto do pr. Ricardo Gondim


17 comentários:

  1. O homem, na sua saga pela sobrevivência, tem ao mesmo tempo, evoluído em algumas áreas, e retrocedido em outras, e viver, em muitos casos, tem se tornado inviável, onde as mazelas humanas têm colocado em xeque a viabilidade da existência humana. Neste belo texto do pastor Ricardo Gondim, ele esmiúça a vida humana de forma clara, transparente e sem firulas.

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  2. Esse mundo é um aprendizado, "não declines nem para a direita, nem para a esquerda, retira o teu pé do "mal...nada nos impede de acendermos a nossa própria luz*...Deus nos põe à prova, esperemos Nele!
    Renovar as nossas forças como "águias que correm e não se cansam"...
    Beijinhos, e bom feriado do Trabalhador.

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  3. Nossa!! Fiquei emocionada ao ler este texto, me embrei de tantas coisas, de tantos sonhos, vi algumas coisas que no dia a dia esquecemos que estão ali e me pergunto.
    Por que meu Deus?
    Sei que não tenho resposta e talvez morra sem ter uma, é dificil ficar indiferente com um texto tão eclarecedor como este, eu simplesmente calei-me.

    Olá Paulo, aqui estou eu, gripada como nunca... mais não pude deixar de vir aqui deixar meu OI e meu BEIJO!!

    http://www.artesdosanjos.com.br/

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  4. Ola Paulo, boa noite...

    Eu realmente não consigo entender quando o homem se preocupa por exemplo em gastar milhões para mais uma viagem a lua, e no entanto propositadamente fecha os olhos para as milhares de pessoas no planeta que passam fome. A situação ´e tão macabra que em um mesmo noticiário observamos agricultores enterrando toneladas de tomates porque houve uma supersafra e os preços não podem cair, e logo em seguida outra com gente morrendo de fome e acham normal... Triste passividade!


    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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  5. Sabe Paulo, embora pareça demagogia dizer isso, o mundo tem sido um hábitat cada vez mais difícil. Como ser feliz se ao nosso lado, a miséria, a fome e a violência consomem com a nossa espécie? Um grande abraço e um ótimo feriado amigo.

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  6. Caramba Chengão! Grande texto mais uma vez do pr. Gondim!
    O homem e suas mazelas pela sobrevivência fingindo ter dó de quem sofre... Isso é terrível!

    Parabens pelo texto aqui no seu blog!

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  7. Oi Paulo
    Eu concordo com o texto, esse mundo está desse jeito, mas como coloquei no meu último post, acho que devemos ser mais otimistas, e mais do que isso, se cada um fizer a sua parte, muito será feito para um mundo melhor.
    Bjos. e um bom dia do trabalho.

    http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

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  8. Tem muitas pessoas que colocam a culpa em Deus por causa das mazelas, e tipo se Deus nos deu o livre arbítrio, então a culpa é do próprio ser humano que faz escolhas erradas, e isso serve pra qualquer um, o pobre, rico, negro, branco etc.
    Se o mundo está desse jeito, nós que somos os grandes culpados, muitas pessoas só falam e não saem do lugar para fazer algo diferente para mudar certas situações. E a tendencia infelizmente é piorar, essa é a realidade.

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  9. Paulo, meu irmão.

    Bom dia! O texto do pastor explanou de forma objetiva questões de ordem política, social e filosófica. Penso que o homem poderia resolver essas questões, mas sempre o ego impede o avanço e o olhar ao outro.

    Fica com Deus!

    Beijos.

    Lu

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  10. Ae Chengão! Tudo bom?
    Ainda se lembrando do show?
    Mano, que belo texto! De fato são tantas cosias que nos fazem perguntar a razão e a falta de ação, a indiferença e a crueldade. Mas no fim é como se importássemos apenas com nós mesmos.
    Ah sim1 Os clássicos da Tv Cultura na década de 90 eram sensacionais..foi minha infância! Claro que conhçeo Anos Incríveis, esse é muito bom! Os dramas do Kevin e a história que possuia humor, drama e fatos históricos...
    Eu falo de anime e cosplay...mas ás vezes solto umas pérolas de flash back não é? =p
    bjs!

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  11. Macedo da Silva, Natal, RN.

    Li e refleti bastante nesse texto, e muitas das mazelas que acontecem no mundo é culpa exclusivamente do homem, e por que não dizer todas. Essa coisa de destino, fatalidade, creio que Deus tem poder para reverter o amanhã e fazer como lhe apraz, mas o livre arbítrio com o qual nos proveu nos repassa uma responsabilidade tremenda com o que acontece tanto conosco quanto com o nosso próximo. Essa semana vi na TV um milionário australiano que vai fazer uma réplica identica do navio Titanic, e vai gastar milhões de dólares por pura vaidade e excentricidade, e por que esse maluco não investe esse dinheiro em uma creche, uma escola para crianças carentes num país do 3º Mundo ou algo parecido, ou seja, tem pessoas que não ligam à mínima para o sofrimento alheio, e por isso que o mundo vai de mal a pior.

    Um abraço.

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  12. Texto lindo, nos faz até ficar tristes com tanta coisa que vemos.Pena.
    Mas não podemos desanimar, senão... abração,linda semana!chica

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  13. Paulo, meu amigo de fé!
    Texto forte e certeiro!
    Complexa situação e conjuntural, e quando toca na mentalidade das pessoas, difícil mudar a situação, pois ninguém quer ajudar ninguém, imagina em situações limite, muito menos ainda.
    Se cada um fizesse um pouquinho, mas...

    Grande abraço para ti e a Michel!

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  14. Concordo. Porém, quando o mundo foi brilhoso? Quando o mundo foi bom? Nunca.

    Historicamente, guerras, matanças, ambição, etc etc etc, acontece desde sempre. Não é uma exclusividade da sociedade contemporânea. Agora apenas está mais evidente. Mas sempre foi assim. Concordo plenamente com Voltare, aqui é o manicômio universal. O matadouro. As injustiças dos justos. A putrificação, o lixão do universo.

    Mas é o que temos, às vezes acho que Deus não tem muito haver com isso. Ele nos deu o terreno, agora a construção é com a gente.

    Enfim,

    Massa o texto, do Pr.

    Abraçãoo

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    Site Oficial: JimCarbonera.com
    Rascunhos: PalavraVadia.blogspot.com

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  15. Olá, querido Paulo Cheng!

    Essa citação de Anna Karenina é simplesmente um axioma. Sem mais. A pobreza já foi tema para vários autores, mas para mim, nenhum deles foi tão fundo como George Orwell, quando das suas experiências saiu Na Pior em Paris e Londres.
    Acho que cada um de nós já viveu um pouco da pobreza, de um modo indireto ou diretamente.
    Não é apenas Voltaire que cita o nosso planeta como uma grande loucura e perversidade [porque nem toda a loucura é bonitinha]. Muitos já anunciaram em alto e bom tom que muitos padecem, adoecem, sofrem e morrem por puro capricho do ser humano. Eu já perdi a fé na humanidade. Os jovens são reflexos das atitudes anteriores. E, como vejo no dia a dia, na minha universidade, por exemplo, são muitas pessoas desprovidas do senso de doação. Enquanto tudo estiver bem e confortável para eles, pobreza, tristeza, solidão e sofrimento são enredos e músicas tristes de bandas empoeiradas.

    T.S. Frank
    www.cafequenteesherlock.blogspot.com

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  16. Olá, paulo cheng.

    Há tempos eu não tinha entrado aqui.

    Ao ler esse texto, lembrei da música do nosso querido Edson Gomes, cantor de regue - não sei se curtes esse estilo musical - mas algumas músicas dele retratam muito bem a situação e a realidade do nosso país e o sofrimento da humanidade, em especial dos mais pobres e necessitados, que carecem de recursos e de atenção do poder público. Vale lembrar que o Brasil é um dos países com a pior distribuição de renda do mundo. Muita gente trabalha muito e ganha pouco.

    jornalismoemfoco.blogspot.com

    autordesobrenome.blogspot.com

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